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MEUS CAROS AMIGOS

Postado em Amigos por Sadao Kusaka em 9 Maio 2007

Já não encontro os mesmos amigos. Éramos jovens, com a vida indefinida. Em pouco tempo demos rumos aos nossos sonhos loucos de sermos tudo e sempre. Agíamos como se nossas relações descuidadas e nós mesmos fossemos eternos. Como consentimos concretizar nossos sonhos de plenitude? Por que não ficamos conversando nos bares e olhando a vida, nomeando-a e hipotetizando o que iria acontecer? O que nos tornou mortais? Que mão forte nos empurrou para dentro da concretude da vida, um dia após o outro ao invés de vida inteira? Como aconteceu de aceitarmos nossa finitude e fragilidade?

Éramos amigos inteiros, também. Totais. Para sempre. Inda hoje, quando revejo um ou outro, a mesma chama de plenitude brilha em nosso encontro e falamos da saudade do tempo das totalidades. Mas depois vamos embora, cada um para sua vida. E carregamos dentro do peito, ao virarmos nossas esquinas, a melancolia do fim de um tempo. Não somos mais amigos? Somos. Só que o tempo agora é outro: quebrado, parcial, dividido em acontecimentos.

Eu era inteiro, também. Total. Para sempre. Inda hoje, quando revejo uma ou outra  fotografia, a chama da plenitude brilha nos meus olhos retratados e sinto saudade do tempo das totalidades. Mas depois fecho o álbum e volto para a minha vida. Mas carrego dentro do peito, ao virar minhas esquinas, a melancolia do fim de um tempo. Não sou mais eu mesmo? Sou. Só que o tempo agora é outro: quebrado, parcial, dividido em acontecimentos.

Agora que fiz 50 anos, percebo que meu momento é mais rico que o de antes. Aprendo a ver o grande no pequeno, o todo nas partes, o eterno no instante. Aprendo a viver minhas horas como únicas, não extensas, não enormes. Aprendo que na fragilidade do mínimo segundo mora a intensidade da hora cheia, do tempo que é e passa. Mas é e o é por completo, em sua total sutileza e singularidade. E tenho, então, a ventura de retomar em meu peito os amigos antigos e  ser capaz de revivê-los e a mim mesmo por inteiro, neste frágil lampejo de memória, fugaz como somos, o infinito das horas mergulhado no minuto.

Autor: miguelangeloyalenteperosa